Uso de lentes prismáticas para o tratamento da dislexia

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    O uso de lentes prismáticas para o tratamento da dislexia não tem base científica.

     

    Tive a oportunidade de ler o artigo “Lentes prismáticas e dislexia do desenvolvimento”, publicado no volume 31 número 4 da Revista Pediatria São Paulo e me preocupei muito com a conclusão dos autores, de que a utilização destas lentes teria determinado a melhora da “performance” de disléxicos, na leitura de palavras comuns e de palavras não conhecidas. Todavia, está claro que tal conclusão não pode ser obtida por meio do estudo apresentado, já que este não inclui grupo controle e também não esclarece se teria sido efetuada qualquer outro tipo de orientação aos pacientes, no intervalo de tempo em que ocorreu a segunda avaliação.

     

    Este tipo de afirmação, obtido a partir de um estudo que não preenche os critérios necessários para ser considerado de cunho científico, é perigoso, pois um leitor menos experiente pode  concluir que a utilização da terapia com lentes pudesse estar indicada em pessoas com dislexia, um distúrbio muito prevalente na população, cujos portadores já sofrem muito com as dificuldades associadas e rótulos muitas vezes pejorativos.

     

    É imperioso relembrar as sugestões publicadas no Pediatrics de agosto de 2009, na qual estão relatadas as recomendações da Academia Americana de Pediatria, da Academia Americana de Oftalmologia e Estrabismo e a Associação Americana dos Ortoptistas1, para o tratamento e identificação da dislexia, que é um distúrbio da linguagem. Salientam que, embora problemas de visão possam interferir com o processo de aprendizado, eles não causam dislexia ou  distúrbios de aprendizagem.

     

    Os autores destacam que não existem evidências científicas que possam aceitar que exercícios oculares, terapia visual, lentes ou filtros possam direta ou indiretamente atuar nestes  distúrbios e que tais terapias não devem ser recomendadas ou endossadas. Ressaltam, ainda, que não existem evidências que possam afirmar que crianças submetidas a estas terapias respondam melhor às instruções educacionais que outras.

    Como Presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, não posso deixar de emitir um parecer de total desacordo às conclusões apresentadas pelos autores neste estudo publicado na Pediatria São Paulo, por ser uma revista de suma importância para a literatura nacional, além de ser um órgão oficial do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, do qual orgulhosamente faço parte. Uma interpretação não científica dos dados apresentados neste estudo poderia implicar na recomendação deste tipo de terapia para um número enorme de portadores, com custos financeiros e de tempo desnecessários.

     

    Reforço que a Dislexia é um distúrbio amplamente reconhecido de bases neurológicas e o seu reconhecimento precoce e adequada terapia são fundamentais para o sucesso dos portadores.

     

    Referência
    1. American Academy of Pediatrics, Section on Ophthalmology, Council on Children with Disabilities; American Academy of Ophthalmology; American Association for Pediatric Ophthalmology and Strabismus; American Association of Certified Orthoptists. Joint statement--Learning disabilities, dyslexia, and vision. Pediatrics. 2009;124(2):837-44.

     

    Erasmo Barbante Casella
    Presidente da Sociedade Brasileira de
    Neurologia Infantil - Biênio 2010-2011

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